sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Poema do Futuro




Poema do Futuro

Conscientemente escrevo e, consciente,
medito o meu destino.

No declive do tempo os anos correm,
Deslizam como a água, até que um dia
um possível leitor pega num livro
e lê,
lê displicentemente,
por mero acaso, sem saber porquê.
Lê, e sorri.
Sorri da construção do verso que destoa
no seu diferente ouvido;
sorri dos termos que o poeta usou
onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;
e sorri, quase ri, do íntimo sentido,
do latejar antigo
daquele corpo imóvel, exhumado
da vala do poema.

Na História Natural dos sentimentos
tudo se transformou.
O amor tem outras falas,
a dor outras arestas,
a esperança outros disfarces,
a raiva outros esgares.

Estendido sobre a página, exposto e descoberto,
exemplar curioso de um mundo ultrapassado,
é tudo quanto fica,
é tudo quanto resta
de um ser que entre outros seres
vagueou sobre a terra.

António Gedeão

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Klepht - Embora doa

A letra representa a impotência e a frustração humanas face às guerras, massacres e terrorismo, que dia após dia nos entram casa adentro pela TV. Um marasmo, quase congénito, apropria-se de quem assiste ao sangue jorrado, separado pelo vidro das 625 linhas que transportam as imagens até nós. Uma dor efémera, que facilmente nos abandona quando premimos o botão vermelho do comando. Após isto, um banho quente e o deleite de uma iguaria qualquer faz-nos esquecer esta triste realidade que lamentamos apenas quando está perante os nossos olhos. E para alguns, embora poucos, fica a latejar a permanente questão:”Qual papel será o meu?”

Aqui fica a letra:

É a dúvida que resta,
que me leva a perguntar...
qual papel sera o meu?
o de quem nada faz?

embora doa, nada fiz para mudar.
embora doa, nada vai mudar.

e revemos nas imagens que não passa de um esboço...
escolhem os senhores da guerra os motivos a seu gosto...

embora doa, nada fiz para mudar.
embora doa, nada vai mudar.

porque nada surprende.
já vivemos com o medo.
quem nos chama a razão?
ao som de armas adormeço...

embora doa, não me faz perder o sono.
embora doa...


Indiferença social

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Citação do Dia

Para marcar o regresso ao meu blog, uma citação do Livro do Desassossego do nosso grande poeta Fernando Pessoa

Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa.
Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém.
Ninguém, absolutamente ninguém.
Quando brilhou o relâmpago,
aquilo que supus uma cidade era um plaino deserto,
e a luz sinistra que se mostrou a mim não revelou céu acima dele.
Roubaram-me o poder de ser antes que o mundo fosse.
Se tive de reencarnar, reencarnei sem mim, sem ter eu reencarnado.
Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que não se escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer.
Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea,
e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem não me soube completar.
Penso sempre, sinto sempre: mas o meu pensamento não contém raciocínios,
a minha emoção não contém emoções. Estou caindo, depois do alçapão lá em cima,
por todo o espaço infinito, numa queda sem direcção, infinítupla e vazia.
Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda do vácuo,
movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada,
e nas águas que são mais giro que águas boiam todas as imagens do
que vi e ouvi no mundo - vão casas, caras, livros, caixotes, rastros de
música e sílabas de vozes, num rodopio sinistro e sem fundo.
E eu, verdadeiramente eu, sou o centro que não há nisto senão
por uma grande geometria do abismo; sou o nada em torno do qual
este movimento gira só para que gire, sem que esse centro exista senão
porque todo o círculo o tem. Eu, verdadeiramente eu, sou o poço sem muros,
mas com a viscosidade dos muros, o centro de tudo com o nada à roda.
E é, em mim, como se o inferno ele-mesmo risse, sem ao menos a
humanidade de diabos a rirem, a loucura grasnada do universo morto,
o cadáver rodante do espaço físico, o fim de todos os mundos flutuando negro
ao vento, disforme, anacrónico, sem Deus que o houvesse criado, sem ele mesmo que está rodando nas trevas das trevas, impossível, único, tudo.

Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego