Para marcar o regresso ao meu blog, uma citação do Livro do Desassossego do nosso grande poeta Fernando Pessoa
Cheguei hoje, de repente, a uma sensação absurda e justa.
Reparei, num relâmpago íntimo, que não sou ninguém.
Ninguém, absolutamente ninguém.
Quando brilhou o relâmpago,
aquilo que supus uma cidade era um plaino deserto,
e a luz sinistra que se mostrou a mim não revelou céu acima dele.
Roubaram-me o poder de ser antes que o mundo fosse.
Se tive de reencarnar, reencarnei sem mim, sem ter eu reencarnado.
Sou os arredores de uma vila que não há, o comentário prolixo a um livro que não se escreveu. Não sou ninguém, ninguém. Não sei sentir, não sei pensar, não sei querer.
Sou uma figura de romance por escrever, passando aérea,
e desfeita sem ter sido, entre os sonhos de quem não me soube completar.
Penso sempre, sinto sempre: mas o meu pensamento não contém raciocínios,
a minha emoção não contém emoções. Estou caindo, depois do alçapão lá em cima,
por todo o espaço infinito, numa queda sem direcção, infinítupla e vazia.
Minha alma é um maelstrom negro, vasta vertigem à roda do vácuo,
movimento de um oceano infinito em torno de um buraco em nada,
e nas águas que são mais giro que águas boiam todas as imagens do
que vi e ouvi no mundo - vão casas, caras, livros, caixotes, rastros de
música e sílabas de vozes, num rodopio sinistro e sem fundo.
E eu, verdadeiramente eu, sou o centro que não há nisto senão
por uma grande geometria do abismo; sou o nada em torno do qual
este movimento gira só para que gire, sem que esse centro exista senão
porque todo o círculo o tem. Eu, verdadeiramente eu, sou o poço sem muros,
mas com a viscosidade dos muros, o centro de tudo com o nada à roda.
E é, em mim, como se o inferno ele-mesmo risse, sem ao menos a
humanidade de diabos a rirem, a loucura grasnada do universo morto,
o cadáver rodante do espaço físico, o fim de todos os mundos flutuando negro
ao vento, disforme, anacrónico, sem Deus que o houvesse criado, sem ele mesmo que está rodando nas trevas das trevas, impossível, único, tudo.
Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego