Hoje, sexta-feira mais uma viagem origem Coimbra destino Guarda, desta vez de comboio. Aproveitei esse tempo "mal passado" num cúbiculo (como ainda são os internacionais), raras são as viagens que faço de comboio, mas têm sempre um quê de especial, nesta sentou-se ao meu lado esquerdo uma senhora de idade, vestida de preto, e que parecia "transportar o mundo nas costas", as rugas na face pronunciavam muitos anos vividos, um sem número, por certo, de experiências e vivências que eu, provavelmente, não vou experimentar. Ofereceu-me umas bolachas, recusei, pouco tempo depois lá estava ela com um saco de amêndoas aberto e à minha frente a dizer "Tire menina, tire menina, não se envergonhe, são limpinhas!!!" e ao ouvi-la proferir tais palavras, à terçeira recusa minha lá aceitei a amêndoa que a senhora, com idade para ser minha avô me oferecia, também pensei "que mal poderia existir?". Assim, começou a viagem para mim extenuante como outras, ainda espero pela invenção da "maquineta" de teletransporte, que torne estas viagens mais curtas. Passados alguns minutos, senti um peso no meu ombro, olhei de soslaio e vi a senhora,que tinha idade para ser minha avó, recostar a cabeça no meu ombro, estava já a dormir o típico "passar pelas brasas". O primeiro instinto foi retirar o ombro, mas depois pensei novamente, "que mal a cabeça de alguém que estava cansado, que provavelmente vinha de uma consulta nos HUC, como muitos que circulam nos comboios, poderia ter sobre o meu ombro??" Dei por mim a sorrir, e a pensar o quão vulneráveis nos tornamos à medida que os anos passam. Comecei a ler o livro que andava a arrastar, a começar como quem diz, uma vez que já estava quase nas últimas páginas, tal como tinha planeado desde que a viagem começou.
O livro de que falo é o "Escrito na Minha Pele" de Nafisa Haji, uma obra notável, para quem desconhece é autora é uma americana de descendência indo-paquistanesa. Nafisa nasceu e foi criada em Los Angeles e vive actualmente no Norte da Califórnia com o marido e um filho. "Escrito na Minha Pele" é um livro incontestávelmente tocante. Aborda questões verdadeiramente interessantes como, por exemplo, o significado da família, da tradição e dos laços que unem as pessoas, apesar da distância e das diferenças culturais.
A obra relata a história de uma jovem muçulmana que, de repende, se vê perante uma escolha difícil entre as forças do seu passado – a sua religião, as suas raízes, a sua cultura – e o seu espírito independente e rebelde."Escrito na Minha Pele" já se encontra traduzido e editado em mais de uma dezena de países e vale muito a pena, a "nota preta" que o meu irmão Ricardo (pikatchu) deu por ele, obrigada =). Quando cheguei à última página, senti uma sensação de bem-estar, conforto é daqueles livros que apetece continuar a ler para acompanhar a vida das personagens, mas o acabar por ali também nos deixa um saborzinho, como que se o dever estivesse completo, como que se as peças do puzzle da vida estivessem completas.
A senhora de preto, continuava "encostada" no meu ombro, então acabando a minha leitura e a viagem ainda a meio, senti-me triste por ter deixado em Coimbra a minha mais recente aquisição "Nunca me esqueças" que comprei na feira do Livro, confesso que o comprei pensando que era uma história de amor daquelas de fazer chorar "baba e ranho", uma vez que as minhas últimas leituras têm andado à volta de factos reais da realidade das Muçulmanas, afinal estive a ler a sinópse e é um romance histórico, mas mesmo assim, tenho vontade de o ler, para quem está habituada a ler José Rodrigues Dos Santos não deve ser díficil gostar. Assim, e ouvindo a música que o meu MP3 me dava, e apenas com um Phone não fosse a senhora que continuava no sono dos justos dizer-me alguma coisa, continuei a ler a Visão, que para quem comprou esta semana, já conhece o visual desta edição, referente ao 25 de Abril, em que vêm as páginas todas com um leve risco azul, vi pessoas a lançarem olhares intrigados na minha direcção, provavelmente pairava-lhes na cabeça o porquê de para além de ter a cabeça de alguém que se via perfeitamente que era desconhecido no meu ombro, ainda estava a ler uma revista toda riscada! Foi impossível não reparar nas inúmeras referências à nova música dos Xutos e Pontapés, interpretada por Kalu, o baterista, e como não poderia deixar de ser a crónica da boca do Infernos assinada por Ricardo Araújo Pereira, a primeira página da revista que leio assim que saio do Quiosque, sempre que a compro. Esta música "Sem eira nem beira" escrita por Tim, tem como destino o Sr. Eng. José Sócrates, descrevendo a situação deplorável em que todo o país e economia se encontra mergulhado aqui ponho um excerto da música que apela à honestidadedos políticos e dos portugueses em geral: "É difícil ser honesto/É difícil de engolir/Quem não tem nada vai preso/Quem tem muito fica a rir/Ainda espero ver alguém/Assumir que já andou/A roubar/A enganar o povo que acreditou".
Por fim, e ao som dos Deolinda (fantástico grupo) o comboio parou na linha número 1 estação da Guarda, coube-me a mim acordar a senhora que ao longo da viagem tinha cambaleado com a cabeça de um lado para o outro, mas que acabava sempre por "encostar" no meu ombro, encavada pediu-me desculpas, e agradeçeu o "ombro amigo". Á minha espera estava a minha mãe, confesso que senti uma felicidade diferente quando a vi é bom estar em casa!!! E o comboio lá seguiu com destino a Paris, eu fiquei-me pela cidade, que sempre me deseja as boas-vindas com aquele frio característico.
Como não podia deixar de ser e "ASSIM À CABEÇA" desejo a todos um Feliz 25 de Abril, que comemora amanha os seus 35 anos e não deixem de dar um "ombro" a quem dele precisar, não custa nada, e parecendo que não faz-nos sentir bem.