Inscrevi como voluntária na CASA (centro de apoio aos sem-abrigo) de Coimbra, mas só o dia 24 de Novembro tive a oportunidade de fazer o meu primeiro giro. Digamos que não tenha sido bem um giro, porque só conheci alguns dos sem-abrigo, uma vez que foi mesmo só para ser feita uma "apresentação" dos novos membros do projecto.
Eram quase 20h quando a coordenadora do projecto me liga e pergunta se sempre estamos preparadas para fazer a comida e ainda ir...supostamente a comida seria para uma hora mais tarde, já estava de pijama e não contava mais sair...contatei com a Diana (que por acaso estava mesmo ao meu lado no sofá) e perguntei à Laura se sempre queria ir, e claro, que nem que fosse pela curiosidade elas disseram que SIM.
Então fizémos o jantar aqui em casa...então rápido se fez um arroz e um café, o arroz embalámos em caixinhas, tudo pronto e lá fomos nós.Via o ar de curiosidade na cara da Diana e da Laura, o mesmo ar que eu provavelmente também mostrava, e na cara e voz da Claúdia via o entusiasmo, dedicação e pode-se dizer amor com que ela falava do projecto e dos sem-abrigo, falando deles como se fala de uma pessoa que já conhemos e por quem nutrimos, que mais não seja, compaixão.
Fomos até à loja do cidadão, mas o Quim (um dos sem-abrigo) hoje não estava lá...então fomos até à Avenida Sá da Bandeira onde à frente do Avenida esperava por nós o Sr. Carlos. A Claúdia foi chamá-lo e apresentou-nos ao que ele diz "caras novas" nós só conseguiamos sorrir, porque, pelo menos falo por mim, não sabia muito bem o que dizer. Dêmos-lhe a comida, e ali ficámos um bocado a falar, ou melhor, o Sr. Carlos é que falou, ainda não tinha comido nada o dia todo, e não é propriamente um sem-abrigo porque tem casa, mas falta-lhe "vontade" ou jeito para cozinhar. Lembro-me de estar a olhar para ele, como se visse alí um avô, não que se parecesse com nenhum dos meus avós, mas poderia ser...a conversa prolongou-se um bocado, notei que mais que a comida que lhe dêmos o que ele apreciava, talvez inconscientemente, era a nossa companhia, e o ter alguém com quem falar. Reparei que ele, de certo modo, sentia carinho pela Claúdia e disse uma frase, que tinha que colocar aqui, não pelo conteúdo em si, mas pelo significado e pelo momento ele disse para nós "Vocês parecem mesmo quatro bonecas!!". Enquanto estavamos ali os cinco reparei que as pessoas que passavam, tanto nos carros como a pé, olhavam para nós de lado e atrevo-me adivinhar que o primeiro pensamento seria "será que estão a ser assaltadas?" "porque estarão estas raparigas a falar com um homem neste estado?" eu pensaria o mesmo caso estivesse a passar, admito.
Então despedimo-nos do Sr. Carlos relembrando-lhe os dias e as horas em que voltaríamos, ao entrarmos no carro, lembro-me de não conseguir esconder o meu entusiasmo e de pensar "isto não é tão mau como pensei, eles são pessoas normais!!".
Seguimos então para uma fábrica abandonada, perto da estação nova, reconheço que me assustei, geralmente, pelo que nos disseram nunca iam aí, mas a Claúdia queria transmitir ao Pedro novidades sobre o facto de ele quer sair da droga. Pois, este último é sem-abrigo e toxicodepente e decidiu ir fazer uma desintoxicação, foi mesmo entusiasmante, no primeiro giro encontrarmos um caso de tentativa de recuperação. E digo tentativa, porque sei que vai ser muito difícil a saída da rua, sei que vai ser complicado a saída das drogas...sei que vai ser doloroso uma mudança assim...mas espero que no final tudo corra pelo melhor. O sem-abrigo em questão, é um rapaz, relativamente novo, de boa aparência, e ainda não muito deteriorado pelo tempo que tem passado pelas ruas...recordo-me de pensar "Se o visse na rua não dizia que era sem-abrigo".
Nessa fábrica estacionámos o carro, numa rua deserta, ela saiu e disse que os ía chamar à fábrica por um cano, entre as três que ficámos no carro comentámos "Isto é mesmo assustador, parece uma cena de filme"depois, puxámos o carro mais para a frente uma de nós (a Laura) ficou no carro, ela ficou completamente assustadinha, e confesso que eu e, que provavelmente a Diana também estávamos cheias de medo...Fomos então junto à entrada da fábrica, onde aparece o Quim, um homem magro, cabelo, relativamente, comprido e liso e mais uma vez pensei "Ele não parece um sem-abrigo" cumprimentou-nos, e foi buscar umas garrafas para pôr-mos o café...depois apareceu o Pedro (do qual já falei) e havia também um 3º que não chegámos a ver...deixámos a comida, eu e a Di viemos para o carro e o Quim entrou para a fábrica, a Claúdia ficou a falar com o Pedro, sobre as novidades.
Era para irmos conhecer os sem-abrigo que vivem nas Químicas, mas como já não havia comida, e parece que são os que passam menos mal, decidimos que o giro tinha acabado por alí. Confesso, que fiquei triste quando a Claúdia nos disse que nessa noite já não iríamos às Químicas, porque estava ansiosa por os conhecer, uma vez que os outros membros do projecto os descrevem como "uns bem-dispostos" e "uns simpáticos" estava mesmo curiosa...E foi assim o meu primeiro giro, ainda não sei se na próxima segunda-feira terei oportunidade de voltar a ir, mas sei que ficou uma experiência com a qual fiquei entusiasmada, e ficou a certeza que vou continuar.
E como se aperceberam os sem-abrigo são pessoas como as outras (com alguns problemas)...e eles poderemos ser um dia nós porque, ultimamente tenho me apercebido disso que basta um pequeno tropeção na vida. Uma crise económica mais prolongada, o espectro do desemprego, a doença, sabe-se lá o quê... O mais importante, em cada giro é tentar acalentar e tentar ajudar a devolver a dignidade da pessoa humana a cada um dos sem-abrigo. Tentar fazer com que sintam que têm alguém que se preocupa com eles, que não os vê como a escória da sociedade, e que não foge deles quando eles se aproxima, que perde (que eu não considero perder, mas sim ganhar) um pouco do seu tempo e conforto do lar para os ouvir e para lhes levar uma palavra amiga.Para mim, o saco de comida que oferecemos é apenas um pretexto.
E os voluntários, ao contrário do que muitos pensam, não são super-heróis, são pessoas normais, que dão, o que eu considero mais valioso, um bocadinho de si em cada giro...não possuem fatos à prova de balas, nem capas voadoras, apenas possuem um espiríto de entrega e muita boa vontade.Para finalizar deixo uma definição de CEGO e PARALÍTICO que tirei de um texto de Mário Quintana:
"CEGO é aquele que não vê o seu próximo morrer de frio, de fome, de misériae só tem olhos para os seus míseros problemas e pequenas dores.PARALITICO é quem não consegue andar na direcção daqueles que precisam da sua ajuda."